A reserva de números
em pó, bem espalhados pelo ponteiro
de uma bússula que estica os úmeros
de um coração inteiro.
Estica-os aos dois bem a cima
e é tal a indiferença,
que a despreocupação da rima
já é doença.
E é tal a naúsea dos empregados,
todos eles homens,
que não só trocam os lençóis,
como queimam o colchão,
fecham o quarto,
e encerram o piso.
Lembro-me que o nosso quarto
era ao fundo do corredor
e eu gritava mudo no parto
do meu amor.
Ainda acordo em suor, encharcado,
levanto-me e arrasto a placenta.
Piso-a em soluços engasgado,
há dois anos, antes dos noventa.
Diogo Baião
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Inveja
De onde vem esta inveja por sua excelência?
A excelência de Hemingway.
O que teremos em comum? - Não sei,
para além desta decadencia.
Será desta minha falta de gola,
ou desta falta de mãos?
Para abanar esta orla
e dizer que o que escrevo são meros grãos.
Grãos de um Homem sem nome,
de um Homem que não me mata a fome,
fome esta, que me engole.
Então planto raios de sol,
a escolha do solo é o meu erro.
Afinal, planto caminhos de ferro.
Diogo Baião
A excelência de Hemingway.
O que teremos em comum? - Não sei,
para além desta decadencia.
Será desta minha falta de gola,
ou desta falta de mãos?
Para abanar esta orla
e dizer que o que escrevo são meros grãos.
Grãos de um Homem sem nome,
de um Homem que não me mata a fome,
fome esta, que me engole.
Então planto raios de sol,
a escolha do solo é o meu erro.
Afinal, planto caminhos de ferro.
Diogo Baião
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Empatia
Que pena que eu tenho dos coxos
e das suas bengalas....
sozinhas e indispostas,
pouco seguras e maleáveis.
Cansadas, encostadas a um canto.
Sempre prontas para mais uma leva.
Sempre apoiadas no chão
e os velhos nelas,
com a mão.
Chego a ter pena de não ter pena que chegue.
Chego a ter pena de não ser coxo.
Chego a ter pena de não ser velho.
Chego a ter pena de não ser bengala.
Diogo Baião
e das suas bengalas....
sozinhas e indispostas,
pouco seguras e maleáveis.
Cansadas, encostadas a um canto.
Sempre prontas para mais uma leva.
Sempre apoiadas no chão
e os velhos nelas,
com a mão.
Chego a ter pena de não ter pena que chegue.
Chego a ter pena de não ser coxo.
Chego a ter pena de não ser velho.
Chego a ter pena de não ser bengala.
Diogo Baião
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Rimar é feio
Procurei no verso da placa de pedra empoeirada de bordos brutos
Diogo Baião
e ainda me dei ao trabalho de ler
qualquer nota, anexo ou letra reduzida,
que pudesse figurar no Decálogo.
Até me deparar com o Décimo Primeiro,
num tom imperativo e agoniante:
"NÃO RIMARÁS!"- li.
A minha mãe sempre me disse que rimar era feio
e que eu não devia ter vergonha,
pois vergonha é rimar.
E nem aqueles, que rimam para pôr comida na mesa,
merecem perdão.
- "As rimas não justificam os tinteiros" - dizia.
Feio, são aqueles miseráveis,
que rimam para alimentar os seus vícios
e que bebem para alimentar a rima.
E a minha mãe que sofreu dois golpes de estado
(um militar e outro de espírito),
dizia, que pior que um divórcio,
só um casamento entre palavras, letras e sons.
Pior, só aqueles que rimam à mão armada,
que ferem culpados,
ao ponto de provocar verborragias tão extensas,
que as vítimas (que de inocente nada têm),
acabam por se esvair em palavras vazias, desprovidas de conteúdo e importância.
Deixo-te este texto não rimado,
num papel que não foi oferecido,
foi roubado.
Diogo Baião
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