quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cabelos Castanhos

A gola é apenas a moldura dos meus acabamentos
em madeira de baco.
Assim escorrem os meus lamentos 
num soalho basco.

Diogo Baião 30/07/2014

Cabelos Brancos

Vestida com um pijama de rapaz,
para vestir um de homem, do que será ela capaz?

Botão saltitante num colchão jugular,
boca entreaberta, qual ferida rasgada!
Entregue ao sono no pós-degolar.
Entregue ao jugulo, dorme descansada.

Diogo Baião 30/07/2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A Quebra-esquinas

Tenho um Castelo em ruínas
e é só do conhecimento dela e do alheio,
que três faces que se cortam, formam as minhas esquinas,
a dela, a dele e a minha no meio.

É um castelo como outro qualquer.
Paredes, quatro cantos, quatro salas e artérias.
Desfeito por uma mulher,
desfeita pelas suas misérias.

É tudo meu! Pedra sobre pedra!
Sou o quebra-tudo!
Ruo em tom agudo.
Sou tudo o que quebra.

Violentamente apelido as pedras como minhas
e a mulher também.
Da verdade fico aquém,
de quem é esta quebra-esquinas.

Podia chamar-se quebra cantos
em vez de quebra-esquinas,
mas de que vale rimar mais com os seus encantos,
do que com as minhas ruínas?

Encantos, encontros,
quebra, não quebra, ousa, não ousa,
para ela estão sempre prontos
para quebrar qualquer cousa.

Encamisados tornozelos
joelhos em crosta,
labios que se desfiam novelos
nas mãos do quebra-costas.

Vigilante cego na minha torre,
vigio a sua rotina,
enquanto o meu castelo morre,
esquina atrás de esquina.

Investida a investida rui o meu muro
segundo proeminentes vozes,
proeminente e duro
já vai no segundo, craq craq, é o quebra-nozes.

Vigilante cego na minha torre
vejo-a. Ela é a erosão e a frigidez.
O meu castelo morre,
uma esquina de cada vez.

Na resolução da mentira proposta,
coração à razão não desobedeças,
nesta esquina suposta
deste quebra-cabeças.

Vigilante cego na minha torre,
desmorono assim
O meu castelo morre
por fim.

Chama-se quebra-esquinas
bem como quebra-corações,
pois rima tanto com as minhas ruínas,
como com os meus grilhões.

Diogo Baião

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Poema do Ciúme

A arma secreta
Em nada tem amor.
Que ao menos fosse reta
- Falo-vos eu, a vossa dor.

Poderia chamar-se morte
E ao menos que assim fosse.
Chamemos-lhe apenas pouca sorte
Com sinais, sintomas: soluços e tosse

Fastio, 
Uma e outra convulsão
Entre dois corpos e um vazio.

Poderia chamar-se com certeza adultério,
Mas não é mais do que imaginação,
A base de todo este impropério.

Diogo Baião

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ópera 88

A reserva de números
em pó, bem espalhados pelo ponteiro
de uma bússula que estica os úmeros
de um coração inteiro.

Estica-os aos dois bem a cima
e é tal a indiferença,
que a despreocupação da rima
já é doença.

E é tal a naúsea dos empregados,
todos eles homens,
que não só trocam os lençóis,
como queimam o colchão,
fecham o quarto,
e encerram o piso.

Lembro-me que o nosso quarto
era ao fundo do corredor
e eu gritava mudo no parto
do meu amor.

Ainda acordo em suor, encharcado,
levanto-me e arrasto a placenta.
Piso-a em soluços engasgado,
há dois anos, antes dos noventa.

Diogo Baião